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Opiniões de críticos de arte sobre sua obra
 
O universo meyeriano, além de ser inédito, tem como ponto importante o compromisso com a vida e a alegria, no qual o lúdico, e uma verve irreverente, humanizam o que poderia ser solene e sobrenatural, e ao mesmo tempo, oferece  resposta a respeito das possibilidades de uma arte brasileira, enraizada e cultivada, contribuir com as linguagens das manifestações contemporâneas e “internacionais”.
 
Georges Racz
Rio de Janeiro
 
A linguagem de Meyer Filho
 
Talvez, por ironia do destino, a morte indesejada ainda acabe fazendo justiça à obra desse artista de forte personalidade.
Apesar de ser reconhecido no País e mesmo no exterior como uma das figuras mais representativas do surrealismo “naif”, deixou, contudo, de ser bem compreendido pelos conterrâneos, que o via, sob ótica distinta, ou seja, impressionaram-se com sua personalidade insólita e não com a obra magnífica de expressão fantástica e ingênua. Esse tipo de comportamento não é incomum e diria que se afeiçoa, com freqüência, à história dos grandes artistas e escritores.
Não foram poucos os que – sou testemunha ocular – ignorantes da feérica imaginação criadora de Meyer Filho, transportada ao contexto complexo de suas telas, eram atraídos mais pelo lado exótico do artista (fruto de uma postura proposital, diga-se de passagem, para provocar a atenção do interlocutor) do que pela linguagem plástica de marcante universalidade. Trata-se de miopia existencial própria dos incultos, daqueles que são seduzidos pelo jogo das aparências e não suportam o conhecimento profundo das coisas e das criaturas.
Talvez - por ironia do destino - a morte indesejada faça justiça a esse extraordinário artista, revelador de uma mitologia singular e cativa.
Por isso creio que, onde possa estar, o demiurgo das cores continuará a ascender além do infinito, coroado pelas luzes de seu universo interior e na companhia dos seres que amorosamente criou – capitaneados pelo Galo, ave da aurora – à sombra dos eternos pincéis de Deus, o mais perfeito dos arquitetos. 
 
Péricles Prade
Florianópolis, junho de 1991
 
A pintura de Meyer Filho é uma alegria contínua. Se entre os critérios para se julgar uma obra estiver, como julgo que esteja, o interesse que desperta, o seu poder de apresentar-se sempre nova, sem desgaste do estímulo que exerce no sentido de formalização inteiro do maior números de espectadores, da legitimidade direta e franca, então a pintura de Meyer Filho, desprezada a questão de ser ou não ingênua, é das melhores que se têm visto no Brasil. Afinal, ele deve pensar como Liliane Lijn, uma artista que, no entanto, se expressa mediante os meios da tecnologia: “To make people happy, that is what arte is for”.
 
João Evangelista de Andrade Filho
Setembro de 1974
 
Meyer Filho apoderou-se dos mistérios criativos, misturando elementos da vegetação, do mundo animal, do universo submarino. Recria o folclore barriga –verde do Desterro, revestindo de linguagem própria, explosiva de cores, poética sempre. Seus galos, elevados à infinita possibilidade da cor e da forma, não encontram paralelos no desenho brasileiro. A constância dos temas  não impede a constante reinvenção. Atestado de um domínios de seus instrumentos de trabalho, nunca sujeitos a modismos ou escolismos. Há quem atenda ao chamado mais profundo que as passageiras solicitações do fácil. Meyer Filho sabe disso. Seus desenhos são sua própria justificativa.
 
Lindolf Bell
Blumenau, 1968
 
Com um núcleo na temática do galo, Meyer Filho dirige seu talento para estas linhas mestras de seu trabalho. Um é a extensão do outro, em tudo há uma referência que o identifica. Com possibilidades infinitas pelo domínio de uma técnica aperfeiçoadíssima de extrema sensibilidade e riqueza formais, o poder criativo de Meyer Filho surpreende pela vitalidade e explosivo colorido que emerge de seus galos, todos estranhos e de transcendente conotação surrealista.
O contato com as raízes mais profundas do mito açoriano reflete-se numa síntese geral que o artista recria e o dimensiona no equilíbrio de planos cromáticos intensos, refletidos nos casarios do interior da Ilha.
 
Osmar Pisani
Florianópolis, 1979 
 
Ernesto Meyer Filho é o Picasso da América do Sul.
 
Pola Resende
Folha de São Paulo, 24 de agosto de 1963
 
Um desenho seguro e pessoal, uma limpeza de expressão plástica admirável, bons sentimentos, invenção piedosa, generosidade e alegria mesmo sem privilégios e arroubos. É uma beleza valiosa a obra desse catarinense.
 
Silvia Leon Chalreio
Rio de Janeiro, 1960
 
A sua série de galos e pássaros fantásticos pertence à melhores e mais originais obras que foram criadas nos últimos anos no campo das artes plásticas brasileiras. Decorativismo, senso de humor, o fantástico, tudo isto junto e inseparável dentro de absoluta intensidade plástica, eis o resultado do árduo e sistemático trabalho de uma vida inteira, que soube transformar e elevar o popular e o anedótico folclórico em arte superior, arte válida para sempre. Um meio-surrealismo, mas absolutamente autêntico, sincero e sentido, emana destes seus últimos trabalhos. 
Um surrealismo meio popular e sonhador e que não tem nada a ver com o surrealismo intelectualizado da maioria dos surrealistas. Senso de humor, o fantástico revelatório, o demoníaco ingênuo, tudo isto dentro de uma plasticidade densa, festiva, de beleza musical e dançante. As suas combinações cromáticas inesperadas, de extrema festividade e intensidade vibratória, o seu decorativismo festivo e inédito, fazem de sua obra um dos acontecimentos mais originais e festivos dentro do panorama atual das artes plásticas brasileiras.
 
Theon Spanudis
Revista Habitat, SP, 1965.
 

É no universo do fantástico que se insere a obra do artista plástico Meyer Filho, não obstante vez ou outra tenha sido envolvido pela aura de um surrealismo atípico ou mitigado, numa espécie de recaída, mormente nos registros de pulsão onírica ao representar, no plano atemporal da memória, seus sentimentos mais profundos, quando, então, os símbolos do inconsciente vêm à luz sob o vórtice da imaginação criadora.
O seu fantástico não eclodiu no limiar do primeiro desenho infantil ou maduro, até porque, como é ressabido, a criatividade passa por várias fases no curso do tempo. Nele, precipitou-se pela inclinação de viés temático-narrativo (v.representações folclóricas, bailes, cenários cotidianos, paisagens rurais e urbanas, etc), somente mais tarde atingindo a plasticidade com excepcional domínio técnico e na medida em que, num crescendo, foi tomado por irresistíveis vontade e alegria de desenhar e pintar.
Tudo isso até chegar a um reconhecido virtuosismo inventivo, fruto de perícia e habilidade igualáveis aos melhores do gênero, dado que o coloca à margem de classificações do tipo naïf, apesar da verificável lúdica inocência à maneira de Rousseau e Chagall, ou da graça, da simplicidade e da ingenuidade imanentes ao lavor artesanal e/ou decorativo de feição lírico-figurativa de determinadas obras.
São constatáveis os impulsos de perfil não-expressionista que justificam a vertente do fantástico, sublinhando-se a herança açoriana, recriada e trans-criada à exaustão com signos gráficos que a  transcendem. Em suma: reinventou a tradição ilhoa de lastro português, dando-lhe outros significados (não só aos do folclore, graficamente falando), catapultando-se da terra lógica ao cosmos delirante para ordenar o caos interior.
Para tanto, a partir dos desenhos da saga do boi-de-mamão, construiu um bestiário originalíssimo composto por monstros de diversas estirpes, crocodilos tropicais, aves estranhas, peixes espadaúdos e seres não identificados, prenhe de sortilégios e prodígios, ainda que, de forma inconsciente, tenha se confortado a personagens da mitologia grega, povoando o seu território arquetípico com centauros e sereias, mesmo sem saber que os animais, com freqüência, como informa Lexikon, representam as forças simbólicas sobrenaturais, divinas e cósmicas, além dos poderes do instinto. Desconhecendo também o artista que, de certo modo, fez um contraponto plástico entre o bem e o mal, na linha da visão cristã dos anjos e demônios.
Percebe-se, nesse requintado e minucioso caleidoscópio gráfico/pictórico de extração mágico-mitológica, um elo entre a terra e o ar, sintetizando, em regime umbilical, os elementos e a fauna onde, como núcleo temático, predomina a figura heráldica da anatomia mutante do galo orgulhoso (simbolizando o sol e o fogo), que, aos poucos, ascendeu dos fundos dos quintais pontilhados às ambiências siderais, nefelibáticas, cuja paciente e rítmica cromática colorística quase sempre quente se entremostra afeiçoada a uma singular poética do realismo fantástico. Devaneio estético, supomos, que atrairia o interesse de Gaston Bachelard.
Diga-se, por último, sem esgotar o frasco, que essa fauna mitológico-esquizofrênica, terrestre e aérea, vivenciando a atmosfera de uma natureza luxuriante, não se distancia do homem. Pelo contrário: a vocação antropocêntrica é evidente, pois se está diante de um bestiário moderno humanizado com caras, rictus, máscaras alusivas e falos volantes bem dotados (que invejariam a Príapo, mas nem por isso devem ser batizados como eróticos ou obscenos, em virtude da prevalência ostensiva do humor) que lembram uma humanidade híbrida que, contemporaneamente, é visitada in illo tempore e no futuro, sendo trazida à tona pela magia e pela beleza da criação artística.

Péricles Prade
Florianópolis, 2006

No transcorrer de uma carreira artística vitoriosa pela sanção positiva da fortuna crítica, a pintura de Ernesto Meyer Filho se tornou emblemática de seu Estado Natal; e dessa pintura, a representação do galo, reinventada em mil facetas, se tornaria icônica. Não é por causa disso, de resto fato histórico esteticamente positivo que deixaríamos de atender à necessidade de tornar mais explícito, quando a ocasião se apresentasse, o vetor que está na base dessa estética, refinada numa espécie de sistema. Refiro-me ao desenho do artista, vertente menos conhecida do seu trabalho, e de relevância não menor que as demais; provavelmente a mais fascinante de todas.
Não apenas porque está mais próxima da verve espontânea, que por ser colhida na imediatez do impulso artístico revela a desenvoltura da mão e do olhar que se torna elíptico pela urgência da expressão. Também não porque, em perspectiva de mutualidade quase genética, seja forçoso considerar o desenho como apoio de uma organização visual que, na pintura, irá adquirir o prestígio da peça conclusiva. Não obstante, nesse sentido o obsessivo exercício do artista, que não perdia o mínimo pretexto para desenhar, seja até exemplificativo.
Finalmente, o motivo de apresentarmos uma exposição de Meyer Filho apenas com os seus desenhos não se motiva pelo desejo de contrariar as regras, nem de desrespeitar o esperado, ou de quebrar a ritualização. A decisão deve-se ao objetivo bem simples e, ouso pensar, consistente: o de exibir, de modo que possa ser apreendido com clareza pelo público, mediante o fato de estarmos mostrando a “arma do crime”, o testemunho cabal de que o desenho tem, como experiência artística, estatuto próprio. E que ele pode conter todos os componentes que integram a unicidade e a completude da obra de arte.
Estou certo de que, ao ver a mostra, muitos concordarão com essa postulação, quando andarem ao ganho de fruir o privilégio de deixar que os olhos passeiem por um dos “fundos de quintal”, elaborados nos distantes anos 50. Ou por sobre a folha branca em que, 30 anos mais tarde, com incrível leveza, foi traçado um mostruário de pássaros, anotados de forma tão escrupulosa quanto harmônica. Tenho certeza, ficará patente, depois disso: que Ernesto Meyer Filho não será mais apenas o bravo colorista, o estilizador, o domesticador de um bestiário exótico ou o retratista de uma fabulação erótico/hierática cheia de humor. Todos poderão notar o aprofundamento de sua sensibilidade poética em uma série de exemplares, que comprova o seguinte: o desenho é o único elemento da construção artística que pode estar nas fundações e, ao mesmo tempo na cumieira.

João Evangelista de Andrade Filho
Março de 2006